Com a previsão da passagem de um ciclone extratropical, pensei no quanto o medo se espalha entre as pessoas da minha cidade e é compreensível. Aqui, o número de casas com telhados frágeis supera em muito o de prédios. Somos uma cidade que cresceu entre casinhas encantadoras, casarões antigos e construções tombadas pelo patrimônio histórico, muitas delas mal preservadas. O receio de que os telhados voem é comum. Eu também tenho medo, sim, mas o que me inquieta mais são os passarinhos, seus ninhos, suas vidas suspensas no vento.
Talvez seja porque vivo há tantos anos nesta rua, protegida pela vegetação generosa do Morro José Lutzenberger. É como se essa natureza me ensinasse a olhar primeiro para os pássaros.
Curioso como uma de minhas noras veio buscar meu filho às pressas, temendo a tempestade que se aproxima. E eu… não temo. Não é de mim que preciso cuidar agora.
Ao meu filho mais novo, que saiu de sua casa para me ver, disse com firmeza: É melhor voltares e ficares atento. Se o telhado voar, pega teus três gatos, coloca-os na caixa de transporte e te protege.
Pareço maluca? Não sou alguém sem drama. Sou corajosa?
Não sei dizer.
Mas sei que a força que me sustenta vem de dentro.
Contudo, se vier…
Que poupe nossos telhados, os ninhos, o encanto que nos une à nossa cidade.
Que nos encontre fortes, e nos deixe inteiros.
Que fiquemos todos bem.
E que assim seja