Nasci cabeluda. Minha mãe toda feliz disse: "Olha como é cabeluda!". A vizinha disse: "Isso enfraquece a criança". Minha mãe pensou muito naquelas palavras e quase se preocupou. Quando fui pra escola, de cabelos compridos até a cintura, lindos e brilhantes, uma professora falou: "Corta o cabelo dessa guria! Ela é muito magrinha esses cabelos sugam as energias dela".
Dessa vez minha mãe escutou a opinião e me levou para cortar. Dona Tita Cabeleireira, beliscou a pontinha da minha orelha ao cortar minhas melenas e eu sai chorando com minha mãe, pela rua da escadaria, de cabelos cortados só de um lado.
Não preciso dizer que quem finalizou o corte foi minha mãe. Passei longos anos de cabelos curtos e me sentia um guri. Queria fazer rabinho de cavalo, trança, "maria chiquinha" e não tinha jeito. Quando na adolescência, deixei crescer novamente, agora mais livre de opiniões. Minha mãe dizia: "Cabelos compridos têm que cuidar". "Vou cuidar, mãe!"
Quando tive meu primeiro filho, alguém me disse novamente: "Corta esses cabelos! Vai dar trabalho cuidar do bebe de cabelos compridos". Bom, quanto a isso devo dizer que concordei. Só um pouquinho...
Hoje estou longe da infância, da adolescência e já nos “enta” eu pergunto pra quem teve a paciência de fazer a leitura desse microconto de minha vida: eu corto?
Já adianto que nessas alturas de minha vida, talvez eu concorde e, de volta ao começo, faça tudo igual. Ou não.